Cinco metros por cinco metros. É essa a dimensão da célula em que o Brasil precisaria se enxergar para fazer funcionar as leis ambientais que já escreveu.
Escala 1:25.000, com precisão de planimetria e altimetria suficiente para decidir, propriedade por propriedade, quem cumpre a legislação e quem não cumpre.
O país não tem essa cartografia. Não para a Amazônia, não para o Cerrado, não para a Caatinga, o Pampa, o Pantanal ou a Mata Atlântica.
É um problema silencioso, do tipo que não vira manchete porque não tem vítima com nome. E é o problema que um projeto do Instituto de Geociências da UFMG, aprovado pela FINEP e conduzido em parceria com o Exército Brasileiro, se propõe a resolver, usando inteligência artificial e um supercomputador inaugurado em agosto.
O país que não consegue se ver
O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta e um arsenal legal para protegê-la. Código Florestal. Pagamento por serviços ambientais. Repartição de benefícios com comunidades tradicionais.
Cada uma dessas políticas depende de uma operação aparentemente banal: olhar para um pedaço de terra e saber o que há ali. Sem mapa na escala certa, a política pública não identifica quem preserva. E o que não é identificado não é remunerado.
A consequência não é acadêmica. É econômica, e recai sobre quem menos pode. As regiões de maior riqueza ambiental do Brasil são, com frequência, as de maior pobreza. As comunidades que vivem nelas produzem um bem público, floresta em pé, água limpa, carbono estocado, e não recebem por isso. Não porque a lei não preveja. Porque ninguém consegue medir.
“Como é que qualidade ambiental não é remunerada e não altera os modos de vida?”
“Só conseguimos fazer isso se conseguirmos mapear, se conseguirmos medir, se conseguirmos quantificar”, diz a professora Sônia Ribeiro, do Instituto de Geociências da UFMG, que coordena o projeto. “Para isso, precisamos de mapas com escala apropriada. Isso não existe no Brasil. O objetivo do projeto é suprir essa lacuna.”
Uma pergunta grande, parceiros de peso, e prova de trabalho
Cartografia de precisão sempre foi feita a mão. Analista por analista, folha por folha. Num país de dimensão continental, a conta não fecha: quando a última folha ficasse pronta, a primeira já estaria obsoleta.
A saída proposta pelo IGC foi automatizar o processo com inteligência artificial. Treinar algoritmos para fazer o que o cartógrafo faz, reconhecer feições do terreno, drenagem, uso do solo, altimetria, sobre imagens de satélite e de sensores hiperespectrais.
Para uma proposta dessa ambição chegar à FINEP, a ideia não bastava. As chamadas de Centros Temáticos são o topo do funil de financiamento à infraestrutura de pesquisa no Brasil, e cada instituição pode submeter um único projeto por linha. Antes de competir com o país, é preciso vencer a disputa interna.
“O segredo do sucesso é ter uma grande pergunta, bons parceiros e provar que você já tem trabalho na área. Sem essas três coisas é muito difícil.”
A grande pergunta estava dada. Os parceiros vieram do lugar mais improvável e mais lógico ao mesmo tempo: como a chamada tinha recorte de defesa, o projeto precisava de aplicação dual. Entraram o Instituto Militar de Engenharia e a Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Brasileiro.
A divisão de trabalho ficou limpa. A UFMG pesquisa e desenvolve os algoritmos. O IME valida e adapta ao contexto de defesa. A DSG fornece dados de entrada e aplica o resultado na produção cartográfica oficial do país.
A parceria trouxe também uma vantagem que dinheiro não compra: acesso a acervos de imagem de alta e super resolução de uso restrito, disponíveis apenas ao Exército Brasileiro, insumo de treinamento que nenhum laboratório civil obteria sozinho.
O projeto foi aprovado. E aí veio o problema que ninguém escreve no edital.
Computadores de gamer.
Áreas muito pequenas.
Modelagem em escala de teste.
Cluster CPU + GPU + storage.
Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.
Escala continental.
O que rodava num computador de gamer
Até então, a modelagem existia. Funcionava. Rodava em computadores de gamer, sobre áreas muito pequenas, recortes de teste, provas de conceito, o suficiente para demonstrar que o método era válido.
Entre demonstrar que o método funciona e aplicá-lo aos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro existe um abismo que não se atravessa com esforço. Atravessa-se com máquina. E não com qualquer máquina.
Imagem de satélite de alta e super resolução é um tipo particularmente ingrato de dado. Não é grande apenas em volume de armazenamento, é grande por dentro. Uma cena hiperespectral carrega dezenas ou centenas de bandas por pixel, e o modelo que a interpreta precisa manter grandes blocos dessa informação simultaneamente disponíveis para enxergar contexto. Um algoritmo que precisa decidir se uma mancha é mata ciliar ou pastagem degradada não pode olhar para um quadradinho isolado. Precisa ver a bacia inteira.
Quando a memória da GPU não comporta o bloco, o trabalho é fatiado. Fatiar significa perder contexto nas bordas, costurar depois e mover dados de um lado para o outro repetidamente. O processamento não fica só mais lento: fica pior.
Memória, nesse tipo de problema, não é conforto. É o gargalo.